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JOSÉ MARIA ALMARJÃO [1920-2008]

MORREU UM GRANDE SENHOR

"Morreu ontem um dos meus maiores amigos, José Maria da Ponte e Horta Gavazzo do Rego Barreto da Fonseca Magalhães da Costa e Silva (Almarjão). Contava 88 anos, mas a diferença de idade não contava, como o não faziam a trajectória profissional, o sexo ou as ideias políticas. Um homem reservado, inicialmente dele só conhecia o facto de descender do político oitocentista Rodrigo da Fonseca.

Por temer que desaprovasse alguns dos meus comportamentos, a amizade demorou a consolidar-se. Ao fim de algum tempo, confessou-me que fazia anos no mesmo dia do que eu, pelo que decidimos passar a festejar a data num almoço conjunto. A partir daí, ficámos íntimos. Estava eu no estrangeiro, quando soube que tinha sido operado ao coração. Nesse Verão, foram deles as únicas cartas que recebi, uma vez que os meus amigos tinham passado a usar o email. Guarda-as, como testemunho de uma das suas qualidades, o sentido de humor. Quando voltei, achei-o bem, mas, pouco tempo depois, a mulher morreu. Mais velho do que ela, José Maria jamais imaginara poder suceder-lhe tal catástrofe. Nunca recuperou. No ano passado, ainda festejámos o dia de anos, mas apercebi-me que já lhe custava muito sair de casa. Até que deixou de ir à sua livraria. Para mim, Lisboa ficou mais triste. Era na "Livraria Histórico-Ultramarina" que costumava passar os momentos mais agradáveis do quotidiano lisboeta. Eu, que raramente saio de casa, sentia necessidade de ali me deslocar aos Sábados de manhã. Gostava daquele estabelecimento, dividido em dois espaços, um, o mais chique, na Travessa da Queimada, o outro, o mais boémio, na Rua Diário de Notícias. No primeiro, José Maria recebia-nos como um príncipe, enquanto, no segundo, éramos atendidos pelo Fritz Berkemeier, um alemão que ancorara em Portugal por se ter apaixonado por uma compatriota nossa. Havia ainda o Rui, que ajudava na loja, e, muito tempo antes, o «Lérias», um corcunda que ajudava a transportar os livros pesados, e que, um dia, pura e simplesmente, desapareceu. Assim era formado o "staff" , como ironicamente lhe chamava o Quito Hipólito Raposo, da livraria. Tão diferentes entre si - o patrão um aristocrata, o segundo um estrangeiro erudito, o terceiro um faia do Bairro Alto, o último um velho alcoólico -conjugavam-se às maravilhas.

Nunca pedi ao José Maria uma obra que não conseguisse obter. Foi na sua loja que adquiri a bibliografia para escrever livros tão diversos quanto o Artesãos e Operários, Eça de Queirós e D. Pedro V. Sem os opúsculos, panfletos e imagens que ele desencantou, tudo teria sido mais difícil. Mas o seu papel não se limitava a isso. Nenhum professor da Faculdade de Letras me deu o que, sotto voce, ele me ofereceu. José Maria sabia tudo sobre todos os temas e sobre toda a gente. A ponto de, um dia, alguém, na Biblioteca Nacional, ter dito a um funcionário que o interrogara sobre um assunto um pouco mais extravagante, que o melhor era "comprar o Almarjão", pensando que o nome se referia a uma obra de referência.

À sua volta, fora-se reunindo um grupo. Não gosto de lhe chamar tertúlia, porque o termo remete para uma reunião montada com base em afinidades ideológicas. Ora, nada poderia ser mais díspar do que a gente que, na sua livraria, se encontrava aos Sábados. Que me podia unir ao Martim de Albuquerque, ao Jorge Brito e Abreu, ao António Pedro Vicente, ao Lourenço Correia de Matos, à Leonor Câmara Pina, ao Luís Mesquitela, ao Paulo Marques, ao Luís Bigote Chorão, ao Diogo Afonso Henriques e à Ana Vicente? Foi o José Maria que fez com que nos víssemos como especiais: éramos, afinal, os seus amigos.

Nada - a colecção de livros, o ambiente acolhedor, o caótico armazém - existia sem ele. Discreto, não se gabava dos clientes que tinha, mas fui-me apercebendo que havia gente famosa que a ele recorria e que conhecia muitos dos grandes alfarrabistas europeus. Um dia, foi visitar-me a Oxford, com a mulher, a Margarida. Ao contrário dele, esta era extrovertida, o que facilitou o contacto. Passeámos pelos jardins dos colégios, até que, em Broad Street, me contou histórias dos tempos em que se dera com um dos alfarrabistas que, nessa rua, fundara a loja que fornecia os livros para a colecção do rei D. Manuel II.
Apesar de há muitos meses ter deixado de ir à sua livraria, ainda hoje - um Sábado - me levantei a pensar que me faltava qualquer coisa para preencher o dia. Não sei se José Maria recordou as palavras do seu antepassado no leito de morte - "Nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos é triste" - mas fiquei contente ao ter conhecimento de que morrera serenamente. Nunca esquecerei aquelas manhãs, como nunca o esquecerei."

Maria Filomena Mónica, Público, 8 de Novembro de 2008

UM ARISTOCRATA ERUDITO E DISCRETO

"José Maria da Ponte e Horta Gavazzo do Rego Barreto da Fonseca Magalhães da Costa e Silva (AImarjão), uma das figuras mais eruditas de Lisboa, alfarrabista e coleccionador de renome internacional, morreu sábado passado, aos 88 anos, de paragem cardíaca.

Era um aristocrata, de pose simultaneamente solene e discreta, para quem o título (era filho do primeiro conde de Almarjão) era quase «uma espécie de alcunha» - como ele mesmo explicava, quando lhe perguntavam a origem do nome. Apesar disso, garante o seu amigo e co--tertuliano António Pedro Vicente, exigia a toda a gente uma deferência mínima.

Orgulhava-se de descender de Rodrigo da Fonseca Magalhães (de quem ainda viria a herdar e a recomprar muitos livros), conhecido como um dos mais impolutos estadistas do constitucionalismo monárquico - que recusou sempre os títulos com que o quiseram agraciar.

Os mais íntimos tratavam-no apenas por Almarjão, os mais cerimoniosos por Sr. Almarjão - nome que acabou por se tornar mítico nos meios da cultura e da investigação nacional e internacional.

Lembro-me que Kotter, esse delicioso ínglês de ficção que se instalou numa quinta de Colares, uma vez falou em dirimir com o Almarjão alguma dúvida histórica intricada. E Filomena Mónica lembrou agora com graça que, certa vez alguém, na Biblioteca Nacional, propusera seriamente e com ingénua boa intenção «comprar o Almarjão» - convicto de estar a referir-se a algum arquivo indispensável.

José Maria Almarjão, filho do Conde de Almarjão, nasceu em 1920 em Carcavelos, num ambiente abastado, que, no entanto, não durou muito. Ainda estudante, teve, por isso, de desistir do curso de Direito (que, de qualquer modo, não seria a sua vocação) e começar a trabalhar cedo na empresa de um parente.

Com o gosto pelos livros, pela História e pelo coleccionismo ­ a família passou recentemente à Câmara de Cascais uma importante colecção sobre o vinho de Carcavelos -, e dotado de uma memória única, cedo se foi tornando um 'sábio', como os amigos o chamavam.

Em 1950, resolveu estabelecer-se como livreiro-antiquário, na Rua do Alecrim, em Lisboa. Mas seria em 1956 que levaria as instalações da sua Livraria Histórica e Ultramarina para a Travessa da Queimada, no Bairro Alto.

Ali recebia amigos que ficaram clientes. Ou clientes que se tornaram amigos. Aos sábados de manhã, foi-se formando uma tertúlia - que evoluiu com os tempos. Ele recordava lá nomes como Ruben A (Ruben Andersen Leitão), Marcello Caetano, Paulo Cunha, Ernesto de Vilhena, Pedro Homem de Mello, Soares Martinez, José-Augusto França, Joaquim Veríssimo Serrão, João de Freitas Branco, Oliveira Marques ou Raul Rêgo.

Depois vieram os mais novos, com Luís Santos Ferro e Francisco Hipólito Raposo à cabeça. Este era, aliás, uma verdadeira alma gémea de Almarjão, também com a sua tertúlia dominical e a casa de quem ia almoçar todas as semanas, até à doença e morte de Hipólito Raposo.

Juntaram-se ainda António Pedro e Ana Vicente, Raul Rosado Fernandes, António. Barreto. e Filomena Mónica (que passaram também a amigos especiais, partilhando e festejando o dia dos anos), Martim de Albuquerque, Jorge Brito e Abreu, Lourenço Correia de Matos, Leonor Câmara Pina, Luís Mesquitela, Paulo Marques, Luís Bigote Chorão, Diogo Afonso Henriques e outros. Uma verdadeira pluralidade.

Durante anos, uma certa Lisboa bibliófila e culta não dispensava os sábados de manhã na Livraria Histórica Ultramarina. Aquilo, aliás, nem era bem uma livraria: era uma sucessão de salas, repletas de livros, com a confusa secretária de Almarjão à entrada, cheia de coisas. Um livro, uma gravura, uma fotografia, um documento, notas com referências, tudo guardado para os clientes especiais - que era o que quase todos aqueles amigos, afinal, eram.

No estrangeiro, o Sr. Silva, como era conhecido, era também uma referência entre livreiros, leiloeiros e antiquários.BR /> BR /> Aos 70 anos, numa grande homenagem realizada no Grémio Literário, o então Presidente de República Mário Soares condecorou Almarjão com a Ordem do Infante.

Depois, a sua vida encheu-se de tropeços: duas operações ao coração, um atropelamento de que nunca recuperou completamente e a morte da mulher. Há um ano, deixou de ir à livraria (que foi vendida em Abril último a Francisco de Jesus Pereira, que a mudou para a Av. do Brasil, ao Campo Grande).

Sábado passado, o dia das suas tertúlias, depois de um tranquilo pequeno-almoço sentou-se num sofá e apagou-se serenamente, sem sobressaltos nem aflições".

Pedro d'Anunciação, Sol, 15 de Novembro de 2008

MORREU UM PRÍNCIPE

Eu tinha 13 anos quando o meu avô, por alguma razão, considerou que eu já tinha juízo suficiente para o acompanhar ao primeiro andar da Travessa da Queimada. A Livraria Histórica Ultramarina era diferente de tudo o que eu já vira. Não era uma livraria, era uma casa. Em cada sala, em cada quarto, havia estantes e livros e caixas e livros e máscaras e antiguidades e mapas. E livros. Era uma casa que tinha um poço - devidamente iluminado e registado na CML - , um jardim e uma escada em caracol para o rés-do-chão (na altura em que conheci já a entrada para a rua se fazia pelo primeiro andar). Na primeira salinha depois da entrada, numa secretária iluminada e atulhada de catálogos, estava um senhor, baixo, impecável no seu casaco e gravata, de cabelos brancos e um bigode pequeno, óculos de aros de ouro e com um ar simpático. O meu avô apresentou-me, disse-lhe que "o rapaz parece que também gosta de livros".

- "Ah sim?" - respondeu aquele senhor - "isso é o que vamos ver daqui a uns anos..." - e já passaram vinte anos desta primeira conversa.

Morreu um príncipe.

Um livreiro-antiquário que lia os livros que vendia, que encontrava o que nós nem sabíamos que estávamos à procura, que identificava fotografias, estampas e gravuras como se os conhecesse desde sempre: "este? não sabe quem é? então, vê-se logo pela bigodeira!". E conhecia. Quando conhecia melhor os seus clientes, mais habituais, reservava-lhes - em locais específicos da livraria - os livros, folhetos, separatas, fotografias ou incunábulos que lhe parecia que poderiam interessar a determinada pessoa. Quem não sabia, por vezes pegava em coisas que estavam à vista e ele dizia logo - "isso não pode ser, está guardado para X". No dia em que me disse que o canto direito daquela prateleira debaixo da mesa grande estava guardado com separatas e uns livros para mim, fiquei a rebentar de orgulho. O Zé Maria já achava que eu "também gostava de livros".

Morreu um príncipe.

José Maria da Ponte e Horta Gavazzo do Rego Barreto da Fonseca Magalhães da Costa e Silva (Almarjão). Era conhecido simplesmente pelo Zé Maria Almarjão, o título de família, que uma vez o vi explicar a um cliente - que lhe perguntou o que era aquele nome entre parêntesis - "Ah isso é uma alcunha que me dão desde pequenino, mas é uma longa história". O Zé Maria gostava muito de histórias. Contava-as como quem revela uma inconfidência - "sabe o que disseram uma vez ao Castelo Melhor, quando ele chegou atrasado?" - por vezes trezentos anos depois. Tanto fazia, os personagens da história e dos livros eram amigos dele. Conhecia-los bem, as suas famílias, com quem tinham estudado, lutado ou zangado, não importa o século.

Morreu um príncipe.

Porque era assim, como um príncipe, que ele tratava e era tratado, o decano dos alfarrabistas portugueses. Mário Soares, cliente habitual, fê-lo Grande Oficial da Ordem do Infante, universidades e governos portugueses e estrangeiros recorriam a ele. "Isto é para Angola" - dizia ele perante a minha pergunta sobre o valor de uma série".

- "para um angolano ou um português?" -

- "não, para a República Popular" - respondia com um sorriso.

Morreu um príncipe.

À sua volta reunia-se uma corte. Com o Fritz Berkemeier como suserano do armazém na rua Diário de Notícias - uma torre digna de Borges, numa ala de um antigo palácio, com três (quatro?) andares labiríntico sobrecarregados de estantes e livros, com um sábio alemão nas suas entrenhas - e o Rui, elevado a Chevalier Servant com A Bola debaixo do braço. E depois os seus amigos dedicados. Conta-se que, uma vez, o Pedro Homem de Mello viu um camião da caixa aberta carregado de livros encadernados e, intrigado, decidiu segui-la até ao meio do Alentejo (seria?). Regressado a Lisboa alertou o Zé Maria da descoberta e indicou-lhe o lugar. Assim se recuperou parte do espólio da Embaixada de Espanha.

Morreu um príncipe.

Nunca aprendi tanto como nas conversas e discussões que ali tive, aos sábados de manhã, que se estendiam para lá da hora de almoço, para irritação do Zé Maria. Cheguei a sair de Ponte da Barca às seis da manhã para lá chegar a tempo, para lá estar. Eu e muitos outros, reunidos à volta dos livros e do Zé Maria, como tão bem descreve a Maria Filomena Mónica num artigo este Domingo. Por vezes fez-me sofrer (esperei três anos até ele me vender uma edição de 1828 do Spectator), outras vezes a sua generosidade chegava a emocionar (um dia deu-me um texto, escrito por ele com catorze anos, sobre um antepassado meu, delicadamente encadernado numa folha de papel de mármore inglês) e muitas, muitas vezes foi meu credor, de prestações infindáveis, a única forma possível de conseguir comprar alguns livros.

Morreu um príncipe.

Num livro sobre Vasco da Gama, o seu autor - inglês, creio - descreve como conseguiu encontrar alguns elementos graças a um "príncipe" livreiro, com os seus óculos de aros em ouro, num improvável Bairro Alto em Lisboa. Hoje em dia, é difícil descrever aquele ambiente sem parecer um conto de ficção, meio Borges, meio Lampedusa. Mas é essa memória, essa amizade e as muitas que fiz graças ao Zé Maria que fica comigo. Isso e os livros, no fundo a razão de tudo isto. Ou, se calhar, é ao contrário.

Diogo Belford Henriques, in blog 31 da Armada
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